Sábado, 30 de Junho de 2012

Um beatnik nacional da melhor categoria

 

 

Certos filmes perturbam (de uma maneira mais do que desagradável) e sua imagem fica registrada em nossa mente de tal forma que passamos anos e anos nos lamentando ou sonhando com suas imagens devastadoras. Contudo, há certos filmes que nos perturbam de uma maneira extremamente positiva. Simplesmente não conseguimos deixar de falar ou pensar nesses filmes, de tão elucidativos e agradáveis que eles são. A Febre do Rato, do diretor Cláudio Assis - que já havia mostrado o seu lado provocador em Amarelo Manga e Baixio das Bestas - faz parte com louvor dessa segunda categoria.

 

O fato de Zizo (uma brilhante interpretação do ator Irhandir Santos), o poeta marginal, Allen Ginsberg pernambucano, de rimas afiadas e esperneador por vocação, ser uma criatura fora de controle - daí a expressão que dá título ao filme - só ajuda a película a se tornar mais ilógica e, por isso mesmo, mais sedutora.

 

Zizo é um agitador, fruto de uma sociedade nordestina miserável cuja única válvula de escape é reagir de maneira furiosa ante o mundo. Através de seu jornal independente, produzido de forma artesanal, ele encara com unhas e dentes a demagogia social que reina em sua terra-mãe, impondo a todos uma resposta radical ao comodismo desagradável, cuja inércia não dá mais para suportar. Quando sua musa (vivida pela sempre bela Nanda Costa) dá as caras e coloca o seu mundo particular de ponta a cabeça, fazendo com que poesia e vida real se confundam, é nesse momento que o diretor mostra o quanto somos dotados de rebeldia por natureza. A diferença é que a grande maioria prefere fazer vista grossa e deixar as coisas como estão por assim ser mais cômodo e "menos doloroso".

 

Raras vezes saí da sala de projeção tão entusiasmado quanto nesse filme que beira o caótico (e, por isso mesmo, tão profundo em sua denúncia) sem perder a gentileza de palavras tao sedutoras e saborosas. Definitivamente: para quem anda sem muita paciência ou enjoado de cinema-favela e comédias sacanas, essa produção é um prato cheio. Um beatnik made in Brasil extremamente arretado.

 

 

publicado por neojukebox às 22:59
sinto-me: Extasiado
música: Notorious - Duran Duran

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